O CRUZADO

 

Por muitos anos a Cruzada dos Militares Espíritas teve como seu instrumento de divulgação interna e externa o boletim “ O CRUZADO”. Esse veículo era considerado o boletim oficial da CME e nele eram publicadas notícias dos Núcleos e GED, bem como atualizações sobre o movimento espírita e mensagens edificantes.

O boletim “O CRUZADO” era normalmente editorado pelo Cruzado Presidente da CME, impresso em papel por uma gráfica e distribuído pessoalmente ou pelos Correios. Sua periodicidade variou de mensal, trimestral, semestral até ser extinto.

Os tempos atuais são outros. Os veículos de mídia avançaram e a Internet é uma realidade.

Entretanto, vale resgatar a história e relembrar mensagens de velhos companheiros da CME. A texto a seguir foi extraído do boletim mensal “O CRUZADO”, Nr 52, de 15 de dezembro de 1969. Trata-se de uma mensagem do Cruzado Gen Bda Duque-Estrada, então presidente da CME, alusiva ao 25 anos de existência que a Cruzada dos Militares Espíritas completava naquele mês.

 

Comemorando

(Gen Bda Duque-Estrada – boletim “O CRUZADO”, Nr 52, de 15 de dezembro de 1969)

 

Vem, a Cruzada dos Militares Espiritas, de completar vinte e cinco anos de existência a 10 de dezembro.

Foi fundada por um grupo de militares espíritas seguros de sua fé, obedientes aos desígnios do alto, que lhes foram transmitido por intermédio dos enviados do Senhor.

Receberam as determinações e procuram cumpri-las. Tudo lhes fora doado: as sugestões como orientação; o Guia perfeito; o preâmbulo dos Estatutos, a firmação vibrante de fé e de coragem, de sinceridade.

Do exame do que se passou; da meditação sobre o ocorrido; da leitura do Preâmbulo dos Estatutos, resulta a convicção da elevada missão que foi destinada à Cruzada, no tocante à divulgação da Doutrina, na prática do Evangelho.

Perceberam, todos os que receberam o encargo de dirigir a Cruzada, o vulto da obra a realizar, e, como consequência, a grandeza do esforço a despender. A tarefa deveria ser árdua, pois o edifício a construir era grandioso em seu projeto e os obreiros reduzidos em número.

Talvez, no entusiasmo de início, motivados pelo estímulo da graça vinham de receber, avançaram de mais, criando obrigações difíceis de cumprir, marcando tarefas exigentes de grandes recursos.

E foram surgindo, como não poderia deixar de ser, os obstáculos a remover, dia a dia maiores, decorrentes da situação socioeconômica que o mundo atravessa, nesse fim de civilização, que a humanidade vive.

O progresso vertiginoso e desordenado das ciências envaideceu os homens, ao desamparo da fé; estimulou-lhes o egoísmo; aguçou-lhes o apetite dos prazeres fáceis; estimulou-lhes as exigências do conforto material.

Compreende-se, portanto, como deveria tornar-se cada vez mais difícil, aos fundadores da Cruzada, a solução do problema que lhes fora proposto. Ele fora apenas equacionado. Tratava-se, justamente, de divulgar, sobretudo entre os militares, dado o alto destino das Forças Armadas quanto à vida da Nação, o Evangelho tornado mais accessível aos homens através da Doutrina, que nada mais é do que esse Evangelho esclarecido, por assim dizer, atualizado, como consequência do aperfeiçoamento, da evolução dos conhecimentos humanos, fornecidos elementos novos de pesquisas, aprimorando os instrumentos de trabalho.

Tudo isso perceberam os fundadores da Cruzada. Como espíritas sabiam que essa é a expressão mesma da vida, a normalidade no viver. O nosso grande vate afirmara, no lirismo exuberante dos seus versos: “A vida é uma luta, que os fracos abate, os fortes exalta; viver é lutar”.

E os fundadores da Cruzada dispuseram-se à luta com entusiasmo, trabalharam com denodo, para, exaltando- se, servi-la com amor, com devotamento.

Não desmerecemos a nenhum deles, ao contrário disso, destacando o nome do Coronel Médico Paulino Barcelos, dentre todos. Tomemo-lo como paradigma, síntese do conjunto, somatório de todas as vontades. É que ele sentiu, melhor do que ninguém, a significação da Cruzada, a sua finalidade, a sua importância, a magnitude da missão que lhe é outorgada.

E passou a viver para ela; rejubilava-se com as suas vitórias; sofria com os seus reveses.

Às vésperas do desencarne do seu espírito, cheio de elevação e de bondade, ofertou-lhe como lembrança derradeira o quadro a que denominava Emblema da Cruzada, de inspiração mediúnica, para figurar na Sede Própria, com que sonhava com carinho.

E esse grupo de devotados foi crescendo com o trabalho de propaganda, com o estímulo do exemplo, pelo contágio da presença.

Pelo Brasil afora, forma surgindo o Núcleos nas sedes das Guarnições; foram credenciados os representantes nos Quartéis e nos Estabelecimentos Militares, em todas as Forças Armadas.

Não queremos com isso afirmar que a trajetória da Cruzada fosse sempre ascendente, em linha reta, caminho mais curto. Não poderia ser assim, tratando-se de uma obra humana. Tem sido, ao invés disso, uma curva caprichosa, com altos e baixos, com máximos e mínimos, com as inflexões de permeio.

Por falta de unidade de pensamento, que o grupo inicial possuía, os Núcleos esparsos pelo território vasto tornaram-se ilhas pormadoras de um arquipélago, ao invés de constituírem um continente único, de homogeneidade perfeita. É que faltava a ação catalítica da presença constante, dadas as distâncias que separavam os elementos formadores.

Ê o que se observa na propaganda da Doutrina por toda parte.

As influências pessoais, estimuladas pelo livre arbítrio de cada um, perturbam, impedindo a homogeneidade necessária do todo, retardando a vitória da causa.

Não obstante isso, dados os esforços do Núcleo Central, constituído pelos fundadores e pelos que se foram sucedendo, animados dos mesmos propósitos, a Cruzada se foi mantendo e evoluindo, firmando-se no conceito do mundo espírita.

A sua importância, como elemento destacado na divulgação da Doutrina, foi sendo reconhecida.

A sua colaboração no trabalho de Evangelho dos homens tomou-se desejada.

É que ela nunca se afastou do caminho que lhe fora traçado, praticando a Doutrina integralmente, com lealdade, sem veleidades de reformas, de interpretações que deformam.

Foi criada para servir e procurou sempre fazê-lo com humildade, com alegria, com amor.

E por isso foi vivendo fraternalmente, firmando-se no conceito da coletividade, crescendo com segurança, colaborando com eficiência, sem nunca deixar de atender ao chamamento para o trabalho em comum.

Nunca procurou, nem sequer pensou nisso, em liderar e sim, em colaborar.

É de âmbito nacional por exercer a sua ação em todo o Brasil, porque os seus trabalhos nas Guarnições, nos Quartéis, nos Estabelecimento Militares, com suas sedes em todo o Território Nacional.

Desse modo, e por ser assim, a Cruzada foi se tornando uma realidade no decorrer do tempo, firmando-se, consolidando-se, realizando a missão que do alto recebeu.

Quanto a sua existência propriamente material, tem sido função, como não poderia deixar de ser, das possibilidades, da contribuição dos Cruzados.

Seu número é relativamente pequeno, seus recursos, limitados.

Apesar disso, mantém o seu Serviço Social para a prática da Caridade sob os seus múltiplos aspectos, como tem o seu Órgão de publicidade.

Tornava-se, no entanto, necessário, indispensável, para maior êxito na realização da tarefa que lhe foi imposta, que a Cruzada possuísse sua sede própria, sua oficina devidamente aparelhada para maior rendimento do trabalho, vencendo com mais facilidade as resistências opostas ao seu desenvolvimento.

Compreendiam, os Cruzados, o vulto do empreendimento, a grandeza do esforço a despender.

Ao amparo da fé consciente e com o auxílio amoroso do Guia, que sentem sempre presente, propuseram-se a resolver o problema equacionado.

Seguiram, de início, o caminho que lhes parecera mais fácil. Buscaram o auxílio dos Poderes Públicos,

dada a finalidade da Cruzada.

No âmbito do Exército, onde existe, de fato, a liberdade de crer e praticar a crença, não houve obstáculos maiores a vencer. Prova disso é o belo edifício, empolgante na singeleza de suas linhas, da sede do Núcleo da Vila Militar — Deodoro, na rua Legionário

Maurício, em Deodoro.

A sede da Cruzada deveria ser mais central, para melhor eficiência do seu funcionamento.

Preferimos não relembrar o que se passou durante dez anos de luta, de esforços despendidos.

Convenceram-se os Cruzados que seguiam caminho enfado e mudaram de rumo.

Procuravam conseguir a sede própria com os seus recursos pessoais. E não mediram sacrifícios e venceram, com o amparo do Guia, com a Graça do Senhor.

O mais difícil foi conseguido. Resta agora complementar o que foi feito e que a burocracia retarda, exigindo paciência, bem como a adaptação da casa adquirida para que preencha os seus fins.

É bastante ainda, bem o sabemos, mas confiamos no ânimo forte dos Cruzados, que já atenderam pressurosos ao apelo que lhes foi feito.

E ao complementar a Cruzada vinte e cinco anos de vivência, vêem os Cruzados tornar-se realidade a sua aspiração máxima, amparados pela fé sempre presente, consciente e estimulante, que o Guia amoroso e bom incentiva.

E ao comemorarmos, nós Cruzados, a data memorável, com alegria e emoção, evocamos os espíritos dos companheiros que partiram, saudosos da sua convivência material cheia de estímulos, e que sabemos presentes, incorporados à Legião de Maurício, para que todos, em comunhão perfeita, rendamos graças ao Guia incomparável pelo amparo que sempre nos dispensou, orientando-nos, amparando-nos, corrigindo-nos com bondade, incentivando-nos com ardor ao cumprimento do dever.

E para que, em conjunto, com humildade e fervor, numa vibração única, volvamos o nosso pensamento ao Pai, misericordioso e bom, infinitamente justo, para agradecer-Lhe ter permitido fôssemos Cruzados, rogando-Lhe com fervor possamos continuar a realizar a tarefa que nos confiou, com segurança, com energia, devotamento.

Que assim seja.