Os Vícios à Luz da Doutrina Espírita


Fernando Antônio Neves

Os vícios são, sem dúvida alguma, a maior chaga moral da humanidade nos tempos atuais. Segundo o neurocientista Stefen Clein, em seu livro "A Fórmula da Felicidade", quando enveredamos na obtenção dos prazeres grosseiros a área cerebral estimulada é exatamente a mesma, com larga produção de serotonina e dopamina que nos dão uma sensação transitória de prazer. A má notícia é que, imediatamente após, os hormônios contrarreguladores são liberados nos dando uma sensação de mal-estar e indisposição. Quando ingerimos bebidas alcoólicas, buscamos a sexolatria sem afetividade, comemos doces exageradamente ou nos drogamos; estamos, portanto, estimulando a mesma área do sistema límbico, numa busca desenfreada por serotonina em nosso organismo. O problema é que após a bebida vem a ressaca, após os lautos banquetes, a indigestão e a sonolência, após o sexo sem amor, a melancolia e o desinteresse.

A longo prazo, destruímos prematuramente o nosso templo físico, pois, como diz Paulo de Tarso, " o salário do pecado (vício) é a morte" (Romanos 6:23).

Esta a diferença básica entre os prazeres materiais e espirituais: os primeiros são transitórios e imediatamente sucedidos pela dor, levando-nos lentamente a desencarnação prematura; os segundos, embora mais sutis, têm maior durabilidade e nenhuma dor, pois tudo o que se refere ao espírito se eterniza e vivifica por si, pela vinculação intrínseca à Fonte de Tudo.

Esses prazeres espirituais a que me refiro são o bem que fazemos aos outros e a nós mesmos através da caridade, da oração e da meditação. Quando fazemos, por exemplo, uma campanha do quilo ou visitamos um hospital ou abrigo de idosos, sentimos uma agradável sensação que, muitas vezes, persiste a semana inteira.

Uma forma simples, portanto, de vencermos as tendências inferiores é substituirmos os prazeres materiais pelos espirituais. Substituirmos os pensamentos negativos por positivos. Na pergunta 917 de "O Livro dos Espíritos", Fénelon nos orienta que a predominância da vida moral sobre a vida material é um poderoso instrumento para enfraquecermos o nosso egoísmo, causa de todos os vícios (pergunta 913). Ocuparmos o nosso tempo com leituras edificantes, palestras esclarecedoras e tarefas evangélicas é instrumento valioso para bem empregarmos a nossa libido e direcionarmos nossos pensamentos, preenchendo com sabedoria os horários vagos.

No primeiro mandamento "Ama a Deus sobre todas as coisas" Jesus nos orienta com exatidão como nos libertarmos da escravidão material. Como tudo, no universo está impregnado da Divina Presença, segundo nos esclarece o mestre de Lyon no capítulo II da gênese kardequiana (A Providência Divina) ao nos apegarmos a algo material estamos substituindo o Todo pela parte e isso nos causa dor e dependência. Quando direcionamos as nossas mentes para a Fonte, fazemos o processo contrário e, portanto, plenificamos o nosso vazio psicológico pela consciência de plenitude, a solidão pelo Amor Maior, a parte pelo todo, o sofrimento pela felicidade da percepção do contato íntimo com o Cristo,  numa forma de prazer infinitamente maior e mais duradoura.

"Amar a Deus sobre todas as coisas" significa, portanto, substituirmos prazeres menores, materiais, grosseiros e efêmeros por um prazer incomensuravelmente maior, mais suave e eterno. Quando seguimos o primeiro mandamento, portanto, situamos as coisas espirituais acima das materiais e isso nos coloca em contato com a nossa verdadeira Essência, nos reposicionando nos trilhos da nossa missão na terra e nos felicitando com a paz espiritual dos justos.

Vale salientar que, existe um forte sinergismo entre o " Amar a Deus", " Amar ao próximo" e "Amar a si", pois estes mandamentos áureos se retroalimentam:

1. Não poderemos amar ao nosso próximo, sem amarmos a nós mesmos, se estamos nos desvalorizando e auto-destruindo fisicamente através dos vícios.

2. Amar a Deus é amar a si da melhor forma possível, pois percebemos que o nosso Si, não é o corpo físico, mas o espírito imortal que, por sua vez já está mergulhado na Consciência Maior que o eterniza e ilumina.

3. Amar a Deus é amar a si, porque a qualidade de nossa vida melhora infinitamente quando submetemos a nossa pequena vontade pessoal à Vontade maior. Quando nos libertamos dos vícios encontramos ao Cristo que habita em nossos corações e nos permitimos ouvir sua voz que nos guia invariavelmente à felicidade nossa e das pessoas que amamos. 

4. Quando nos auto-destruímos estamos desrespeitando o amor ao próximo porque prejudicamos justamente as pessoas que mais amamos. Nossa esposa, filhos, pais e amigos são os mais afetados se os trocarmos pela viciação que antecipará a nossa morte física. Esta é outra forma extremamente eficaz de evitarmos o primeiro gole, a primeira mordida compulsiva ou uma relação extra-conjugal: colocarmos na tela mental a figura da nossa esposa e filhos e perceber o quanto lhe causaremos dor com nossa atitude!

O maior dos vícios, segundo a pergunta 913 de "O Livro dos Espíritos" é o egoísmo e a maior virtude é o desinteresse pessoal (pergunta 893).

Portanto a chave da felicidade e da liberdade é submetermos nossa pequena vontade à Vontade Maior, que, num nível mais profundo, também é a nossa e, entrando em contato, com o amor que emana dos nossos corações, exteriorizar o Cristo, o Sublime Amor, que nos vivififica e que teve sua maior expressão no meigo rabi da galiléia.

O amor, portanto, substituirá todas as nossas necessidades, enchendo de alegria todos os instantes da nossa vida e nos conduzindo rumo ao futuro radiante que a todos nos aguarda.

O autor é médico e conferencista espírita na cidade de Recife, PE.

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