O Precursor


Heraldo da Costa Kremer

Cz 5.222

Não obstante a figura de Jesus compor a própria essência dos textos evangélicos, consubstanciada nas preciosas lições que ele nos legou, ao tomarmos conhecimento das narrativas apresentadas pelos evangelistas, não encontramos qualquer dificuldade para identificar uma série de outros personagens que tiveram participação ativa e importante no desenvolvimento daqueles acontecimentos inesquecíveis, coadjuvando ao Mestre na realização de seus propósitos.

Eles também eram espíritos de luz, também estavam em missão na Terra, e, portanto, também merecem todo o nosso reconhecimento e admiração. Porém, de modo geral, ficamos tão fascinados, tão maravilhados com a figura do Cristo, que não damos a devida atenção àqueles que com ele vivenciaram momentos cruciais para a Humanidade.

Dentre estes personagens destacamos um que, apesar de ter recebido uma missão muito especial, da qual se desincumbiu com rara perfeição, talvez seja dos menos comentados e estudados. Trata-se de João, denominado o Batista, precursor da vinda de Jesus à Terra.

Ao acompanharmos o Evangelho de Lucas, em seu capítulo primeiro, tomamos conhecimento dos fatos extraordinários que precederam o seu nascimento, envolvendo seus pais, Zacarias e Isabel, iniciando-se com a aparição do anjo Gabriel, quando Zacarias exercia suas funções de sacerdote do templo, ocasião em que foi anunciado o nascimento de um filho, apesar da idade avançada de ambos e da esterilidade de Isabel.

Gabriel já deixava patente a missão que estava reservada para João ao afirmar que ele seria grande diante do Senhor e que converteria muitos dos filhos de Israel, mas, principalmente, ao reproduzir a profecia de Malaquias (3:23) quando diz: -"Ele irá diante do Senhor com o espírito e o poder de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos, e converter os desobedientes, de maneira que andem na prudência dos justos, a fim de preparar para o Senhor um povo dedicado".

A narrativa tem continuidade com a notícia de que João crescera, se fortificara em espírito e que habitava nos desertos, aonde lhe veio "a palavra de Deus", ou seja, a inspiração do Alto, determinando que era chegado o momento de sua manifestação a Israel. João passaria então a percorrer a circunvizinhança do Jordão pregando "o mergulho da reforma mental para a rejeição dos erros", deixando claro que este mergulho deveria representar um arrependimento verdadeiro, configurado numa mudança radical de pensamentos e de comportamento.

Com seu temperamento enérgico alertava aos que o procuravam, instando-os a estarem atentos à lei de causa e efeito, a "ira vindoura", a não se julgarem salvos tão somente por se considerarem "filhos de Abraão", e que não perdessem mais tempo uma vez que "o machado já está posto à raiz e toda árvore que não dá bons frutos é cortada e lançada ao fogo".

Aos que lhe pediam orientação apresentava os princípios básicos de seus ensinamentos: - a divisão fraterna dos bens; justiça nas cobranças; energia sem violência; não caluniar a ninguém e conformar-se, sem ganância. Na verdade tratam-se de elementos simples que não constituem por si só a ascensão espiritual, mas sim a preparação para ela, o mínimo necessário para quem se disponha a progredir.

Sua fama se espalhava e multiplicavam-se os seus seguidores, mas humilde e consciente falava a todos: - "eu na verdade vos mergulho em água, mas vem aquele que é mais poderoso que eu, e não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias: ele vos mergulhará no espírito santo e no fogo".

Sua fama se espalhava e aumentavam os seus problemas, tanto que sacerdotes e levitas são enviados para inquiri-lo. E eles o questionam: - Quem és tu? És tu Elias? És tu o Profeta? Mas João responde a todas as perguntas com um simples não.

A princípio tal negativa poderia nos surpreender, afinal temos a idéia muito clara de que João era, de fato, a reencarnação de Elias. O próprio Jesus, mais tarde, daria fortes indicações a esse respeito, tal como as narradas em Mateus 11:14 e 17:11-13. Porém, em essência a negativa estava correta. João não era Elias, ele fora Elias em uma vida anterior, mas na atual ele não era mais Elias e sim João.

Chegado então foi o tempo em que Jesus se apresenta a João, para ser mergulhado por ele. E João se esforça por evitar o mergulho de Jesus dizendo: - "eu é que deveria ser mergulhado por ti". Mas a resposta de Jesus é incisiva: - "Deixai por agora; porque assim nos convém cumprir toda a justiça". A necessidade salientada por Jesus de cumprir toda a justiça tem o sentido de que era necessário realizar tudo o que estava previsto. Havia uma programação que precisava ser cumprida integralmente, passo a passo.

No dia seguinte ao mergulho de Jesus, João ao vê-lo daria novo testemunho: - "Eis o Cordeiro de Deus que tira o erro do mundo! Este é o homem de quem eu disse: Depois de mim vem um homem, que começou antes de mim, porque existia primeiro que eu; eu não o sabia, mas para que ele fosse manifestado a Israel, é que eu vim mergulhar na água".

Contudo, o episódio mais esclarecedor da grandeza espiritual de João Batista ocorreria pouco antes de sua morte. Ele tem início com discípulos de João que, reparando na ascendência cada vez maior de Jesus sobre o povo, correm para avisá-lo e fazer queixa do que estava ocorrendo. Muito embora reconhecendo que Jesus estivera com João além do Jordão, e que o Batista dera testemunho em favor dele, a imperfeição humana se manifesta na forma do ciúme e eles reclamam "ele está a mergulhar e todos vão a ele".

A intenção era de suscitar uma reação, um protesto, por parte de João contra aquela concorrência. A expectativa era a de ouvir uma condenação veemente contra aqueles abusos de que tinham notícia. Mas a resposta de João é magnífica e repleta de humildade. Ele não perde a oportunidade de apresentar uma preciosa lição de espiritualidade, que bem indica o quanto estava consciente do papel que lhe competia desempenhar, ao dizer:

- "O homem não pode receber coisa alguma, se do céu não lhe for dada. Vós mesmos me sois testemunhas de que eu disse: Eu não sou o Cristo, mas sou enviado diante dele. O que tem a esposa é o esposo; mas o amigo do esposo, que está presente e o ouve, muito se regozija por causa da voz do esposo. Pois este meu gozo está completo: é necessário que ele cresça e que eu diminua".

João é o amigo que está radiante com a vitória de Jesus; e não o concorrente que se entristece por ficar para trás. E essa alegria atinge o seu grau máximo quando ele afirma "é necessário que ele cresça e que eu diminua".

Quanta grandeza nessa afirmativa! É este diminuir, nas contas de Deus, que não fecham com as contas dos homens, porque é na verdade um exaltar, que fará, mais tarde, com que João mereça de Jesus o testemunho: "entre os nascidos de mulher, não há nenhum maior do que João".

 

O autor é Engenheiro e Expositor do Instituto de Cultura Espírita do Brasil.

 

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