
Da Prece
Manoel Candido de Andrade Netto
Cz 5.253
Com o advento da Doutrina dos Espíritos a concepção de oração, comum em todas as religiões, ganhou um significado especial e foi buscar orientação e normas no próprio texto evangélico, conforme nos mostra Kardec no capítulo XXVII de "O Evangelho Segundo o Espiritismo". Para ser eficaz a prece precisa ser revestida de algumas características específicas conforme nos ensinam os Evangelhos. É muito mais que apenas um aglomerado de palavras muitas vezes gerado pela erudição em belo texto literário mas falto de conteúdo. Ela é, principalmente, uma vibração gerada pelos mais belos e nobres sentimentos de amor, independentemente das palavras que se possam dizer. Assim, apresentamos a seguir, os atributos que os Evangelistas, de alguma forma, indicaram para que a prece surta o efeito desejado.
Recolhimento: "Mas tu quando orares entra no teu aposento, e, fechando a tua porta, ora a teu Pai..." (Mt 6:6). O ato de orar não é demonstração pública de virtude ou exposição de méritos espirituais de quem ora. É, antes de tudo, uma comunhão de espírito entre o encarnado e a espiritualidade superior. "Quando orardes não sejais como os hipócritas que gostam de orar em pé nas Sinagogas e nas esquinas das praças para serem vistos". (Mt 6:5)
Fé: "... tudo é possível para quem crê!"(Mc 9:23). Para caracterizar a necessidade e a força da fé, o próprio Mestre afirma: "...se tivésseis a fé do tamanho de um grão de mostarda, diríeis a essa montanha: transporta-te daí para ali e ela se transportaria..." (Mt 17:20). A fé, fruto do entendimento dos mecanismos que a fazem alcançar os mais elevados planos espirituais e não a dos fanáticos gerada pela ignorância, é força capaz e indispensável para facilitar a consecução do desiderato de quem ora. Embora "... tudo o que pedires, orando, crede que o recebereis..." (Mc 11:24) é preciso entender que existem leis naturais sábias e imutáveis que não podem sofrer alteração para atender a um simples pedido nosso. Muitas vezes, em termos espirituais, é uma benção do Pai a não acolhida de um pedido nosso.
Concisão: "E na oração não faleis muitas palavras como os pagãos..." (Mt 6:7). A multiplicidade e a extensão das preces, com a repetição das mesmas frases, produzem cansaço e, em conseqüência, impedem a necessária concentração. Nesse caso os lábios pronunciam as palavras, mas o coração não as acompanha com o sentimento.
Simplicidade: As palavras devem ser de uso comum, de significado bem conhecido por quem ora. Nada das pompas ritualísticas que a cultura e as convenções sociais procuram impor, desvirtuando o objetivo maior da prece. Ela pode ser dita em qualquer lugar, a qualquer hora, dispensando os templos e quaisquer outros apoios de natureza material. Muitas vezes até mesmo as palavras podem ser dispensadas... Vale a pena ler o Capítulo 14 da 1ª Epístola aos Corintios onde Paulo faz um magnífico estudo deste tópico.
Humildade: "Mas o publicano, parado à distância, nem se atrevia a levantar os olhos para o céu. Batia no peito dizendo: ó Deus, tem piedade de mim, pecador." (Lc 18: 13). Todo o Evangelho de Jesus, se analisado com cuidado, é uma pregação continua de duas virtudes sobre as quais repousa a Sua Doutrina como um todo, a caridade, expressão mais sublime do amor, e a humildade, como enaltecida no Sermão da Montanha ao afirmar: "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus" (Mt 5:3).
Amor: Somente o amor, em sua expressão mais elevada, guiado pelos mais puros sentimentos, nos possibilita aplicar todas essas características que a prece deve satisfazer, particularmente o perdão incondicional àqueles que tenham nos ofendido de alguma forma, pelo menos até que a nossa evolução espiritual chegue a tal ponto que possamos nos considerar inofendíveis.
Perdão: "...mas quando vos puserdes em oração, perdoai, se por acaso tiverdes alguma coisa contra alguém..." (Mt 5:24 e Mc 11:25). De fato como poderemos nos comunicar com o mundo espiritual se não conseguimos sequer aplicar a nós próprios um dos princípios básicos do Cristianismo, que é perdoar?
Modelo: "É assim que haveis de rezar... Pai nosso..." (Mt 6:9) É a prece por excelência. É também um exemplo pelo qual o Mestre nos apresenta uma oração desprovida de termos desnecessários e que abrange praticamente todas as nossas carências de apoio espiritual, sem apelar para recursos puramente literários. Mas Ele não nos limita apenas a ela. Nós podemos criar no momento de orar uma prece adaptada a nossas necessidades sabendo que seguindo a orientação do Evangelho, ela será eficaz.
Apresentamos algumas das principais características que deve ter uma prece e, em momento algum, encontramos referências indicando que ela necessita de qualquer exteriorização para tornar-se eficiente. É importante entender que a prece pode e deve ser feita em qualquer situação e em qualquer lugar. Mesmo quando nos sentimos felizes e que julgamos nada ter a pedir devemos orar, pois é esse o momento em que a prece se torna mais bela pois se transforma em um agradecimento espontâneo por tudo aquilo que recebemos gratuitamente do Pai.
O autor é Cel Eng R/1 e milita no Núcleo da Praia Vermelha-Urca (RJ) da CME.