Penas Temporárias


Sebastião Nunes Cavassoni

Cz 5.371

Deus é a Inteligência Suprema, como nos ensina a Codificação Espírita, e nós, Seus filhos, não podemos ser senão, minimamente, princípios inteligentes que, embora criados "simples e ignorantes", somos tornados, na Escola Ativa das Vidas Sucessivas, por seus cuidados permanentes, em Espíritos, gradativamente, aperfeiçoados.

Ele, o Pai, na Sua Sabedoria, nada criou que não fosse perfectível, para que tudo crescesse em "Espírito e Verdade", com a finalidade de cooperar no engrandecimento de Sua Obra, como o fez Jesus, o Cristo, com o Sistema Solar que nos abriga.

Falar hoje, em penas eternas, conforme ainda pregam até alguns irmãos que se consideram cristãos, diante das inúmeras provas de Amor de que temos sido objetos, é demonstrar o mais absoluto desconhecimento sobre a Bondade de Deus.

Essa torpe idéia, verdadeira aberração de tudo o que é divino, veio das concepções bárbaras dos povos primitivos das eras pré-históricas da civilização, ainda muito próximas da animalidade, quando as massas rebeldes e violentas exigiam o terror como freio da insanidade geral que as caracterizava.

Na criação da Igreja Romana, quando o Império Romano se esboroava diante das ameaças fronteiriças dos povos bárbaros e da decadência do patriciado, Constantino, no Século IV, ao fazer-se imperador por sua astúcia e determinação, projetou, em cálculo político, reunir num único todos os credos existentes naquela população cosmopolita de Roma, daquela época, sob a bandeira do "In hoc signo vinces", visão de uma cruz cristã luminosa que, segundo ele, o teria orientado na campanha final de sua marcha vitoriosa para o trono.

Com isto, visou ele reorganizar o povo numa estrutura nova, religiosa, que desse união e moral para restabelecer o poder romano, capaz de enfrentar e vencer todas as ameaças internas e externas que se opunham à salvação do Império.

Estadista arguto e perspicaz, criou assim, no dizer dos historiadores, uma "Religião para o Estado", num legítimo sincretismo, onde juntou de cada crença o que mais atraia a população, mesclando então cultos estranhos com os ensinos cristãos para formar a doutrina da criada Igreja Católica Apostólica Romana, incluindo aí a idéia esdrúxula das penas eternas.

Só no século VI, no Concílio de Trento, o núcleo bom da Igreja criou a instância do purgatório, onde poderiam cumprir penas temporárias os condenados por pecados veniais, amenizando assim a concepção da justiça terrível que punia todo e qualquer pecado não perdoado por seus sacerdotes, pelas penas eternas do inferno.

Entretanto a velha alegoria do inferno permaneceu de propósito, durante séculos e séculos, aterrorizando as multidões católicas, para dar força ao sacerdócio e manter a autoridade da Igreja Romana. No século XIII, Dante Allighieri, admirável poeta italiano, compôs a festejadíssima Divina Comédia que procurou reavivar todo o horror da velha alegoria do inferno, fruto da imaginação anti-religiosa, instado que foi a cooperar nessa empreitada.

Mas é conhecido o adágio que diz que Deus escreve certo por linhas tortas, o que mostra bem a administração divina dos destinos da criação. Em nossa limitação espiritual, custamos muito a perceber os propósitos do Céu na montagem dos fatos que conduzem o crescimento da civilização. Apesar dos inúmeros descaminhos, conforme nos parecem, a humanidade sempre segue no rumo certo, de lição em lição, muita vez dolorosa necessariamente, para seu crescimento espiritual, como a própria Igreja Romana que apesar de todos os seus erros, cumpriu sua sagrada missão de guardar os Evangelhos, conservando-os, mesmo através das trevas da Idade Média, para que o mundo pudesse usufruir dos ensinos de

Jesus, quando a humanidade mais instruída e esclarecida, os reconhecesse como o verdadeiro tônus espiritual de elevação para o Pai.

Só com o advento de "O Livro dos Espíritos" no século XIX, quando a humanidade chegou à Idade da Razão, é que se aprofundou o entendimento da Justiça Divina, e as idéias de inferno, diabo e penas eternas passaram a ser proscritas como enxertos espúrios do atraso, incompatíveis com a Lei de Amor, com que o Céu, cuidando da evolução geral para o Bem, emprega só o perdão com responsabilidade, objetivando a perfeição moral dos Espíritos, dando com as reencarnações as oportunidades de rearmonização para aqueles que se desermonizaram com seus irmãos.

O Espírito quando compreende que errou, levado pela dor, chega ao arrependimento e à compreensão de sua inferioridade causal. Busca então o alívio na sua reforma moral e se auto-inflige as provas necessárias para comprovar-se resgatado de suas tendências negativas. Se ainda assim, tem malogradas suas tentativas de renovação, da mesma forma, novas oportunidades lhe serão concedidas, até que consiga suplantar suas falhas morais.

Não há nem como pensar em castigo de Deus, quanto mais eterno.

Deus, que é puro Amor, não utiliza de punição no Seu processo educacional que objetiva, unicamente, a perfeição moral de todos os Espíritos, até que estes por sua livre e espontânea vontade possam cumprir o Mandamento Maior que Jesus, o Mestre dos mestres, nos trouxe do Pai : "Amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo."

 

O autor é Cel Art R/1.

 

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