
Mudando de Lugar
Marco Aurélio de Almeida Rosa
Cz 6.164
Ao longo de nossas vidas assistimos a partida de amigos ou parentes que mudavam desta para aquela cidade, estado ou até mesmo país.
Normalmente eram bancários, militares ou diplomatas que, fruto da natureza de sua profissão, deslocavam-se com maior freqüência.
Nos dias atuais observamos que vem se tornando comum a mudança devido à dinâmica do mundo moderno, inerente às diferentes profissões.
Neste contexto, o espírita se vê diante de uma dificuldade que a muitos aflige, entre tantas outras, na hora da mudança: que Casa Espírita vou freqüentar no novo destino? Como conseqüência desta dúvida, outras surgem, para ampliar o clima de incerteza que nos envolve nesta hora: Como será o movimento espírita local? Como vou dar continuidade às tarefas já iniciadas? Como ficará meu desenvolvimento mediúnico? Será que poderei aplicar o passe na nova Casa? Como darei seqüência aos estudos já iniciados? Terei que retornar ao início?
São questionamentos muito simples que nos assaltam, mas que trazem muita angústia a inúmeros companheiros que se vêem as voltas com esta situação.
Assim tem-se constatado que, infelizmente, não encontrando respostas adequadas a estes questionamentos, muitos espíritas acabam por esmorecer ou até mesmo afastar-se das lides espíritas, desperdiçando excelente oportunidade de redenção.
E muitas vezes isto ocorre por não prestar atenção a alguns pontos que gostaríamos de destacar nestas linhas, à guisa de reflexão.
Inicialmente, é preciso cuidado com o saudosismo, responsável, em muitos casos, pelas dificuldades de adaptação à nova Casa Espírita.
A saudade é um sentimento generoso que nos mostra o quanto já temos de amor em nossos corações, que chora na partida ao deixar para trás afeições construídas ao longo dos dias, das atividades, em serviço espírita. Mas, apesar deste alto valor, a saudade pode tornar-se um incômodo se não for devidamente compreendida.
Desta forma, ao chegarmos a nova Casa Espírita devemos evitar as comparações com a nossa antiga Casa, esforçando-nos por lembrar-se dela com alegria, sem esquecer que o agora oferece novos aprendizados, novos desafios.
Muitos confrades desavisados permanecem no saudosismo doentio, deixando desta forma, de observar os pontos positivos da nova Casa Espírita, bem como os pontos negativos da antiga Casa. Isto dificulta a adaptação.
É preciso lembrar que todo aquele que muda assemelha-se ao semeador, que recolhe o conhecimento em um local e leva para outro, espargindo-o por onde passa.
Assim, livre do espírito de prevenção que a saudade desgo- vernada nos traz, procure verificar como funciona a nova Casa Espírita, que trabalhos possue, quais as regras e, principalmente, qual a sua história.
Para tanto, é necessário conversar com os antigos trabalhadores e acima de tudo, respeitá-los. São irmãos que, embora possam ter alguma prática espírita discordante das propostas de Allan Kardec, detém o valor de haver construído e mantido um espaço que hoje nos abriga, bem como a nossa família, nos concedendo um pouco de repouso em horas turbulentas.
É salutar ouvir o que tem a dizer os novos confrades, o que pensam, as suas lutas, suas angústias, porque fazem assim ou assado, as razões motivadoras das suas ações. De repente, vamos perceber que somos velhos conhecidos e que há muito por fazer neste novo lugar...
Em seguida, apresentar-se ao trabalho, fugindo da indesejável postura de não vinculação às atividades por não serem semelhantes àquelas de minha anterior experiência, dando espaço ao saudosismo doentio. Poderíamos perguntar, cada um a si mesmo, se não há uma certa vontade de "descansar" um pouco das atividades espíritas, das disciplinas que a Doutrina Veneranda nos sugere, dando chance ao homem velho, que do país do inconsciente, nos propõe desculpas para não trabalhar...
Com isto, pode-se aos poucos ir apresentando idéias novas, ofertando sugestões, trazendo suas experiências, dinamizando o movimento espírita.
O que seria da natureza se não fossem os pássaros, que tomando da semente levam-na para terrenos baldos de vegetação? Ou, se não fosse o vento, que soprando em várias direções fornece à natureza os nutrientes necessários à sua continuidade?
Devemos atentar às contribuições que podemos fazer no estudo doutrinário, ofertando novos materiais, coordenação ou simplesmente a participação.
Podemos participar da assistência social, procurando adaptar-nos aos trabalhos existentes e fugindo da idéia de criar um trabalho que atenda as minhas necessidades pessoais. Neste tópico, importante notar que muitos confrades deixam de contribuir com o trabalho social por não ser exatamente aquele que gostaria, sem considerar o quanto poderá crescer numa nova atividade, além de criar uma nova frente para a Casa sem a certeza de que estará presente para conduzir, já que é itinerante.
Quanto ao serviço mediúnico, não entrar em confronto com a Casa pelas regras estabelecidas para a aquisição de novos trabalhadores, procurando compreender as peculiaridades de cada local. Vale lembrar que as maiores deserções ocorrem pela demora em serem chamados para a atividade mediúnica, não atentando para a necessidade de vincular-se aos trabalhos e harmonizar com a cidade, as pessoas, enfim, efetivamente integrar-se à Casa para entrosar-secom os trabalhadores antigos.
Temos visto, o que não nos parece pertinente, confrades que chegam à um local com a assinatura na face de que é médium e que portanto deve ser aceito para o trabalho, sem cogitar da necessária integração à Casa. Assim, acabam por não participar das demais atividades, mas desejam participar da atividade mediúnica...
Podemos, ainda, oferecer nossos préstimos à Evangelização, ao atendimento fraterno, a distribuição de mensagens, enfim, trabalho é o que não falta.
Convertamo-nos, assim, quando de mudança, no trabalhador sincero do Cristo, lembrando que sempre estamos no lugar certo para servir, com as pessoas certas, naquela hora, naquele grupo, naquele trabalho, com aquela proposta e busquemos transformar esta possibilidade na alavanca da nossa evolução.
O autor é Maj Cav, Instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e Presidente do Núcleo da Praia Vermelha-Urca (Rio de Janeiro, RJ) da CME.