
Jesus no Lar
Carlos Wagner de Britto
Cz 6.999
Três dias depois, houve um casamento em Caná da Galiléia, e estava ali a mãe de Jesus;
e foi também convidado Jesus com seus discípulos para o casamento.
E, tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm vinho.
Respondeu-lhes Jesus: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora. (João, 2:1 a 4)
Em termos científicos, a humanidade avança a passos largos, com a Ciência acelerando o progresso tecnológico, proporcionando melhores condições de vida. Embora disponível, a tecnologia não pode ser utilizada por todas as pessoas e, portanto, está longe de ser um bem comum. Aqueles que podem pagar usam os avanços da Ciência, que acumula os conhecimentos de todas as épocas.
A festa de casamento em Caná foi o primeiro evento social que Jesus participou com seus discípulos. Maria ao informar Jesus que o vinho da festa havia acabado, foi como se pedisse a seu filho uma providência, que não era administrativa como compra ou doação de mais barris de vinho para a festa, e sim um ato do seu poder como Embaixador Divino.
A resposta de Jesus de que ainda não havia chegado sua hora demonstra todo o conhecimento e domínio sobre sua missão recebida de Deus para a reformulação moral da Terra.
Mas não foi só Maria que pediu a Jesus "sinais" de sua missão profética. No período dos três anos de sua obra messiânica, muitos foram os que também lhe pediram.
Mas ele lhes respondeu: "Uma geração má e adúltera pede um sinal; e nenhum sinal se lhe dará, senão o do profeta Jonas" (Mateus, 12:39).
O sinal pedido ao profeta Jonas foi o da transformação individual do homem, já que ele recebeu de Jeová a missão de convencer a população de Nínive, na Assíria, a eliminar os maus costumes e retornar aos caminhos de Deus, pois em caso contrário seria totalmente dizimada. Jonas conseguiu o seu intento e, assim é que o Antigo Testamento relata que o povo de Nínive redimiu-se e salvou-se da extinção (Jonas 3:4 a 10).
Atualmente, os problemas de ordem moral, ainda são praticamente os mesmos da Antigüidade. Evoluímos em descompasso de velocidade entre RAZÃO e SENTIMENTO.
A humanidade ainda se debate com problemas de ordem puramente moral, mas que se refletem no seu organismo social, pois o homem é um animal essencialmente social.
O homem diferente do seu co-irmão irracional tem consciência de sua existência e, por isso tem expendido grandes esforços a fim de entender o sentido de sua vida no planeta. Ao alcançar a razão, o homem passou a fazer escolhas e, por conseqüência a sofrer ansiedade pela consciência de seu livre arbítrio. No animal o instinto funciona como um arbítrio automático que o livra da dura luta consciencial de uma possível opção equivocada.
O benfeitor espiritual Emmanuel aborda este tema com límpida clareza quando nos diz que em todas as épocas, a sociedade humana é o filtro gigantesco do espírito, em que as almas, nos fios da experiência, colhem os frutos da plantação que lhes é própria, em obediência aos ditames da evolução1.
A geração má e adúltera que Jesus nos fala somos nós mesmos que viemos ao longo do tempo reencarnando no planeta na marcha incessante do progresso espiritual.
Dentre os males que mais atormentam a atual sociedade pode-se distinguir quatro dos mais radicais, pois são de difícil diagnóstico e aceitação por parte da própria pessoa:
Depressão
Um dos grandes ícones da nossa era é a imagem da felicidade. Mostram-se propagandas com pessoas a bordo de iates luxuosos, fazendo viagens a locais paradisíacos, usando roupas caras e exóticas, consumindo bebidas sofisticadas, participando de grandes festas e shows. Tem-se a idéia então que a felicidade está ligada a divertir-se. Mas em que consiste a diversão? Veja-se que tanto nas camadas econômicas mais baixas quanto nas classes mais ricas, o que muda é o custo da busca ao prazer, mas não a qualidade.
Quer dizer, então, que ser feliz é ter dinheiro para custear todos esses prazeres? A vida prática tem mostrado que não.
Os índices de alcoolismo, uso de drogas, práticas de aborto e principalmente de suicídio, têm sido mais altos nas sociedades dos países mais ricos.
Podemos definir a felicidade como um estado de espírito de plenitude, de intensa relação com a realidade da vida e com as pessoas. É a descoberta das próprias fraquezas e conseqüente capacidade de se utilizar delas para crescimento pessoal e dos seus semelhantes.
Não seria o contrário de tristeza, já que toda pessoa feliz deve admitir momentos de tristeza em sua vida. A depressão seria, então, o estado mais adequado para definir o estado de falta de felicidade de uma pessoa.
A depressão é a incapacidade de sentir; sensação de se estar morto, embora vivo.
As relações, atualmente, estão sendo ativadas sem vínculos afetivos. Assim pior do que odiar é não sentir nada, é ser indiferente.
O Apocalipse de São João fala em seu capítulo 3, versículos 15 e 16, que os fiéis deveriam ser QUENTES ou FRIOS, em suas relações pessoais, mas não MORNOS.
Alienação
Com a revolução tecnológica, a transformação do planeta numa grande aldeia global, e a busca frenética de prazeres materiais de conforto, bem estar e destaque social, esse mal tem se acentuado bastante.
O alienado deseja a qualquer custo ser aceito pelas pessoas que compõem sua camada social. E esse desejo de fazer parte de determinado grupo social o faz imitar idéias e atitudes, a proceder da mesma maneira daqueles componentes. Essa é a forma que o alienado encontra para sentir-se aceito. Ele não questiona os padrões aos quais se submete por escolha própria, o que ele busca é o conforto e a segurança de se sentir aceito.
O perigo maior hoje em dia está na faixa dos jovens. Numa fase de profundas transformações tanto no campo físico quanto no comportamental, é comum ver-se o jovem contestando tudo e, até a si mesmo. Quando a criança ou o jovem não se sente seguro nem amparado pelos seus familiares, é quase certo que vá buscar esse auxílio na rua.
Um desenho animado apresentado pela TV Globo, num Natal de há muitos anos atrás, chamado "A Ponta", conta a história de um menino que vivia numa cidade onde todas as pessoas tinham a cabeça no formato oval pontudo. Só ele tinha a cabeça na forma humana conhecida; ele era discriminado por causa desse "defeito" e, por causa disso, seu maior desejo era de um dia acordar com a cabeça na forma de todos da cidade. Acontece um dia que ele acorda e sua cabeça se transforma conforme seu desejo, só que no mesmo dia toda a cidade desperta com a cabeça na forma humana. Quando ele questiona o fato às pessoas, ele então descobre que todos na cidade estão felizes com a transformação, pois na verdade todos tinham inveja do formato antigo de sua cabeça. A moral da história é mostrar que temos que nos valorizar no que é essencial e não nos preocuparmos demasiadamente em agradar as pessoas, mas sim estabelecer relações de mútuo respeito, independente da cor, raça, nome de família, nacionalidade, enfim nossas origens.
Medo
No livro Nosso Lar de André Luiz, psicografia de Chico Xavier2, assim é descrito o sentimento do medo: "Classificamos o medo como dos piores inimigos da criatura, por alojar-se na cidadela da alma, atacando as forças mais profundas". O medo no atual estágio da humanidade faz parte dos males pelos quais temos que passar já que somos componentes de um planeta de provas e expiações, onde o bem ainda é só uma promessa.
O que é o medo? Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda, o medo é o sentimento de inquietação diante de um perigo real ou imaginário.
Então o medo é uma força natural, e como tal serve até certo ponto como um escudo a nos proteger dos perigos de fora para dentro. O problema é quando esse medo surge dentro de nós, sem motivação concreta, ou seja, sem que realmente haja algum motivo real externo para suscita-lo. É neste instante que surgem os graves problemas que afligem a criatura humana. Os medos irracionais, que escapam a todo tipo de sensatez, que povoam as mentes das criaturas como se fossem os dragões dos contos de fada infantis.
Tal sentimento em sua forma radical alcança o estágio cujo nome dá-se fobia. A fobia bloqueia o raciocínio, paralisa a vontade. O Evangelho segundo o Espiritismo3 classifica as nossas aflições em dois gêneros: - as que têm causa na atual encarnação, e aquelas cujas causas se encontram em encarnações anteriores, lembrando, no entanto, que o exame atento e imparcial de nossa conduta permitirá constatar que muitas vezes as aflições decorrem de nossas atitudes equivocadas nesta atual existência.
Como todas as paixões humanas o medo tem sua utilidade, para isso basta que o usemos a nosso favor de forma que aquilo que em anteriores reencarnações ou na atual existência nos tenha prejudicado física ou mentalmente seja evitado e, sirva de experiência motivadora para não nos ferirmos novamente.
Culpa
A medicina rotula como Transtorno Obsessivo-Compulsivo a um quadro que o povo costuma chamar de "manias". Exemplos: Uma dona de casa passa horas limpando sua casa, porque é permanentemente perturbada pela idéia de a mesma se contaminar pela sujeira da rua.Uma jovem mãe é atormentada pela idéia de que vai ferir seu filho pequeno com uma faca e, por isso, recusa-se a tocar em facas e em outros objetos pontiagudos. Um homem sempre que sai de casa tem de voltar várias vezes para verificar de novo se tudo em casa está desligado. São idéias repetitivas que vem a cabeça contra a vontade do indivíduo e, que mesmo julgando-as absurdas não consegue se ver livre delas. A aflição não constrói, a ansiedade não edifica2. Assim como é condenável criar mecanismos de fuga à responsabilidade individual, também não há progresso algum no arrependimento ou remorso que mantenha as pessoas amarradas a culpas passadas, reprimidas mentalmente, ou em estados constantes de depressão.
Jesus, o introdutor da idéia da misericórdia divina e incentivador do perdão entre as criaturas, deixou duas pérolas no seu Evangelho sobre a relação entre culpa e perdão. A primeira é no episódio em que ele informa a Pedro que era necessário perdoar 70 vezes 7 vezes todas as pessoas (Mateus 18:22) e, a segunda é no episódio em que uma mulher adúltera iria ser apedrejada, e ele falou aos seus algozes : "Aquele que estiver sem pecado que atire a primeira pedra" (João 8:7). Na seqüência desta narrativa, Jesus também funciona como um motivador da reconstrução individual, pois além de alertar para os perigos da hipócrita falsa moral, também incentiva a mudança dos padrões internos de comportamento quando diz: "Eu também não te condeno. Vai, e não peques mais".
No lugar do estímulo da culpa estéril, há sim um grande chamamento à responsabilidade dos próprios atos bem como reeducação mental. Jesus, assim, exorta uma atitude ativa e não passiva em relação aos atos de fraqueza moral.
O Livro dos Espíritos4, questão 913, alerta que o egoísmo é a fonte geradora de todos os males que afligem a humanidade. Mas se está no interior do homem a raiz de todos os seus males e que o prendem à culpa, é também nele que se encontra a chave da sua libertação. Essa chave se chama amor. Por isso Jesus nos recomenda a amar a Deus sobre todas as coisas e, ao próximo como a si mesmo (Mateus 22:37).
Quem ama a Deus, ama seu próximo. Quem ama seu próximo, ama a Deus. Quem não ama a si mesmo, não é capaz de amar. Quem ama, verdadeiramente educa a si mesmo e a seu próximo.
A educação segundo Allan Kardec, não é somente o instruir-se intelectualmente, mas sim a arte de manejar o caráter, a que forma os hábitos, porque a educação é o conjunto de hábitos adquiridos (O Livro dos Espíritos4, questão 685).
Onde e quando começa a educação de cada criatura? A resposta a esta questão deve necessariamente desaguar na idéia de que é na família (célula mãe da sociedade) que está a matriz geradora da educação de seus componentes e, é o lar o maior laboratório de transformação individual do ser humano.
Retornando às bodas de Caná, quando o chefe do cerimonial se surpreendeu porque o melhor vinho ficou para o final da festa, devemos entender que quanto mais avançamos no setor do entendimento e da fraternidade, melhor a qualidade das nossas relações interpessoais.
Vivemos atualmente uma época de relacionamentos rápidos e frustrantes; fáceis de serem constituídos, porém frágeis em sua essência; eternos enquanto duram e que nada duram; de muito contato físico com raro entendimento mútuo.
Há um medo e preconceito com relação às relações duradouras, como se essas fossem produto da acomodação das pessoas umas às outras. Infelizmente parte de nossa sociedade ainda está orientada para uma vida de individualismo hedonista, na qual quanto mais rápida e provisória é uma relação menor o risco de compromisso com o outro. Os casais estão tendo seus nomes trocados para parceiros, e a família assim vai se transformando aos moldes de pequena empresa.
Quando Jesus entra em nosso lar, na verdade são as portas do coração da criatura que se abrem para a vida, e vida em abundância.
Cada um de nós é a menor célula dessa grande tessitura que é a sociedade humana. Se uma célula estiver doente, todo o tecido social padecerá com a doença.
Jesus não veio para curar os sãos, veio trazer a Boa Nova que na verdade é o maior e mais prático manual de profilaxia física, mental e espiritual que se tem notícia.
Fontes de consulta
1 – Emmanuel. Pensamento e Vida. Psicografia: Francisco Cândido Xavier. 6a. ed. FEB. "Sociedade" - Item 18.
2 – André Luiz. Nosso Lar. Psicografia: Francisco Cândido Xavier. 29a.. ed. FEB. p. 230-231.
3 – Allan Kardec. O Evangelho segundo o Espiritismo. Edicel. Cap 5, itens 4,5 e 6.
4 – Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. FEB .
O autor é Engenheiro e membro da Diretoria do Núcleo da Vila Militar-Deodoro,
no Rio de Janeiro