Inteligência Espiritual


Décio Lins Schons

Cz 5.418

Pessoas comuns que somos, costumamos dividir nossa ação no mundo entre a luta pela sobrevivência física e a busca pela bem-aventurança espiritual. Somente em determinados momentos, movidos por impulso interno inerente a todo ser, ensaiamos a meditação sobre a vertente espiritual do nosso destino. Em dias específicos da semana, é comum as pessoas buscarem a conexão com o poder divino, comparecendo a igrejas, mesquitas, sinagogas, centros espíritas ou templos das mais diversas denominações. Nos momentos antes de adormecer, fazemos o balanço do dia e, ao despertar para uma nova jornada, elevamos o pensamento em prece ao Criador, em busca de amparo para os desafios que nos aguardam.

Fora esses momentos, porém, no trabalho diário, nas fábricas, nos escritórios, nos diversos locais em que labutamos pela conquista do alimento e do conforto do corpo material, deixamos de considerar a realidade extra-física e imergimos totalmente no drama de cada dia, com sua carga de ansiedades, trabalho e provações.

Assim, conduzimos nossas existências como se estivéssemos em dois mundos distintos, que muitas vezes nem ao menos se tangenciam, como se vivêssemos duas vidas independentes, dois seres estranhos, cada qual alienado da existência mesma do outro.

Desde já alguns anos, diversas escolas de pensamento nas áreas da psicologia e da administração passaram a considerar essa realidade. Como expoente dessas tendências, podemos mencionar a teoria das múltiplas inteligências, que deixou de lado o antigo conceito de uma inteligência única e abrangente, tradicionalmente ligada à capacidade de analisar, pensar de forma abstrata, usar as diversas linguagens, visualizar e compreender.

Bastante difundido entre nós está o conceito da inteligência emocional, que diz respeito à capacidade de autoconhecimento e consciência que o ser humano tem de si mesmo, de empatia com outras pessoas, de comunicação eficaz dos pensamentos. Assim, a inteligência emocional seria, em síntese, a capacidade que o ser humano tem para utilizar na plenitude a inteligência mental.

Um dos últimos avanços nessa área foi a "descoberta" da inteligência espiritual, que seria a inteligência fundamental, aquela que proporcionaria orientação para as demais inteligências. Ela representaria, assim, o impulso em direção à busca de significado e de conexão com o universo.

Essa aproximação vem sendo saudada como um grande passo, uma "nova visão no mundo dos negócios". Para os entusiastas, a admissão dessa realidade representaria uma tendência capaz de abalar as próprias bases do capitalismo tradicional, tirando-lhe o foco imediatista, direcionado para o lucro a qualquer custo, destruindo suas hipóteses básicas sobre o ser humano, encarado como sendo basicamente materialista e essencialmente egoísta.

Para os espíritas, a teoria da inteligência espiritual está longe de constituir uma novidade. A Doutrina Espírita, mediante postulados marcados pela racionalidade, impulsiona fortemente seus seguidores a considerar a vida material como mero reflexo, embora indispensável, da vida espiritual, esta sim a realidade perene do espírito divino. Não existem dois seres coexistindo em cada um de nós, pois somos, na verdade, o mesmo ser eterno, manifestando-se em diversos níveis de vibração, atuando sobre diferentes universos que coexistem no mesmo complexo espaço-tempo.

A codificação kardequiana, ao demonstrar a realidade da vida além-túmulo, explicita a sua preponderância como realidade maior, sobrepondo-se às ilusões da matéria e do corpo físico. Ao deixar clara a natureza evolutiva do universo e de todos os seres, abre a possibilidade de aperfeiçoamento do ser humano e da vida em sociedade. Mais que isso, define esse caminho como irreversível, qualificando o ser humano como inexoravelmente destinado ao progresso e à felicidade.

Os princípios espiritistas da Reencarnação e da Lei do Carma, alicerçados na fé cristã e na moral evangélica, conferem ao ser encarnado valiosa ferramenta para o seu progresso espiritual. Aquele que de boa-fé esposa esses princípios está a caminho do alinhamento da existência material com a sua natureza espiritual. Ao aplicá-los, poderão homens e sociedades reduzir a defasagem entre o "homem tecnológico" e o ser espiritual que a ele precede e para sempre subsiste.

A Lei de Causa e Efeito é força inelutável, sempre presente na vida de todo ser humano. Abstraindo-nos, porém, da constante cármica, podemos atuar sobre as variáveis à nossa disposição. Viver segundo os princípios cristãos é, seguramente, receita para saldar os débitos do passado e apressar o caminho para a redenção.

O espírita sincero, seguro da consistência da Doutrina que adotou e que estuda constantemente, tem consciência da necessidade de progresso em todas as áreas do conhecimento e da atividade humana. Saúda cada nova descoberta ou aplicação prática de conhecimentos antigos, agora analisados sob nova luz, com a satisfação de constatar a realidade de sua fé raciocinada e a justeza dos enunciados do Codificador, sob a inspiração sábia dos Espíritos superiores.

Dessa maneira, verificamos o interesse dos teóricos da administração e da psicologia pelo homem espiritual. Essa busca há de trazer-lhes boas novas, nem todas relativas ao mundo dos negócios. Se fizermos analogia com certa pesquisa geológica ocorrida há alguns anos no Nordeste Brasileiro, na qual, em vez de petróleo encontrou-se água, podemos dizer que os pesquisadores da inteligência espiritual arriscam-se, nessa busca,a encontrar algo mais profundo e muito mais importante.

 

O autor é Cel Cav, atualmente servindo na Comissão do Exército Brasileiro em Washington.

 

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