Espiritismo e Materialismo


Roberto Ângelo de Barros Padilha

Cz 6.629

 

Em suas conversas com os cidadãos de Atenas, Sócrates costumava dizer que a morte seria uma de duas coisas: a destruição completa da individualidade do ser que morria, como se este mergulhasse em um sono profundo, eterno e sem sonhos, ou a continuidade de alguma coisa contida nesse ser (a alma ou algo equivalente), que passaria a viver em outro lugar e sob outras condições. Acrescentava Sócrates aos seus ouvintes que, qualquer que fosse, dessas duas possibilidades, a verdadeira, não havia por que temer a morte e por isso ele a encarava sem medo. E deu mostras disso após sua condenação, enfrentando com serenidade e galhardia a própria execução e recusando a comutação de sua pena de morte, a troco de concessões que não estava disposto a fazer.

A opção materialista

A primeira hipótese considerada por Sócrates, ou seja, a morte como o aniquilamento puro e simples do ser humano, sem que nada de sua experiência, seus conhecimentos, seu amadurecimento possa ser aproveitado, consistiria em um materialismo atroz que não ofereceria qualquer incentivo à bondade, ao altruísmo, aos cuidados com o meio ambiente, à transferência de conhecimentos às gerações futuras, etc. Adotar essa hipótese como uma realidade indiscutível levaria as pessoas a um comportamento altamente egoísta, um modo de vida predominantemente animal, típico da barbárie. Tal comportamento pode ser observado, em todos as regiões do planeta, principalmente nas pessoas que detêm o poder, exercido legal ou ilegalmente, mediante o uso da força ou da astúcia ou de uma combinação dessas duas coisas. Pessoas há que detêm um poder quase ilimitado e usam tal poder, sem outra limitação que não a da própria força de que dispõem, para aumentar cada vez mais seus privilégios, monopolizando e esbanjando recursos naturais, destruindo o meio ambiente, espalhando a morte ou a invalidez, a destruição, a fome, a doença e a miséria a um número cada vez maior de pessoas que são assim relegadas à marginalização. É a esses que se refere Joanna de Ângelis, ( "O Despertar do Espírito", capítulo 1) quando diz:

"O enriquecimento ilícito de uns trabalha em favor do crescimento da miséria de bilhões de criaturas outras que lhes constituem a grande família e permanecem ignoradas."

Não somente os detentores diretos do poder atuam no sentido de perpetuarem privilégios e injustiças ao redor do mundo. Eles se acham rodeados de diligentes colaboradores que se beneficiam também das benesses do poder na medida de sua colaboração e que se espalham por todas as áreas de atividade: política, econômica, científica, religiosa, jornalística, cultural, esportiva, etc. Qual o motivo para se comportarem de modo tão nefasto? Sem dúvida o motivo principal é o pensamento materialista implícito na primeira das duas hipóteses formuladas por Sócrates. Achar que a morte seja o fim da linha para o ser humano, sem qualquer compromisso ou responsabilidade em relação aos atos cometidos durante a vida, é um convite ao egoísmo desenfreado, é a garantia de uma impunidade total, a nulidade de qualquer acordo ou compromisso. É grande o número de pessoas que engrossam as fileiras do materialismo, embora nem todas admitam ou mesmo se apercebam do seu comportamento. Cegadas pelo egoísmo e pelo orgulho, consideram-se privilegiadas por natureza e dispensadas de qualquer esforço ou renúncia em benefício da coletividade, exceto quando tal esforço resultar em benefícios compensadores para elas mesmas.

A opção espiritualista

A segunda hipótese formulada por Sócrates é antagônica em relação à primeira. Admitir que existe uma alma e que sua identidade é preservada após a extinção do corpo carnal, além de ser uma idéia mais reconfortante é também muito mais coerente com a sabedoria implícita na grandiosidade e complexidade do Universo que nos cerca. Aceitar a sobrevivência da alma nos leva naturalmente a um contexto muito mais rico do que o simplório materialismo. A complexidade, a vastidão e a harmonia do Universo, que aí estão submetidos a todos os nossos meios de observação, naturalmente nos conduz à idéia de Deus, como a inteligência suprema e causa primária de todas as coisas. (" O Livro dos Espíritos", Pergunta 1). Negar a sua existência seria admitir que do nada pudesse ter sido criada alguma coisa.

As informações que nos chegam de todas as partes, através dos diferentes meios de comunicação, parecem indicar um mundo caótico, perverso, materialista. A tecnologia avançou e continua avançando em altíssima velocidade e, se por um lado trás conforto e segurança às nossas vidas, por outro lado aumenta de forma inquietante o poder de destruição à disposição dos homens. Não é segredo que o arsenal atômico, distribuído por alguns países, seria mais do que suficiente para varrer a espécie humana da superfície do orbe.

Felizmente, porém, não só de trevas vive o planeta. Muitas pessoas já perceberam que o chamado plano espiritual é uma realidade inegável, evidenciada por numerosas experiências bem sucedidas e documentadas cujos registros se acham disponíveis para quem quiser tomar conhecimento deles. A comunicação com os espíritos, praticada rotineiramente nos centros espíritas e ocasionalmente fora deles; as obras psicografadas por médiuns idôneos como Chico Xavier e Divaldo Franco, entre outros; as terapias de regressão a vidas passadas (1); as lembranças espontâneas de crianças que se recordam de fatos ocorridos em outras vidas, muitas vezes comprovados por investigações rigorosas (2 e 3); as chamadas experiências de quase morte, observadas independentemente por vários experimentadores idôneos (4 e 5), são exemplos de tais fenômenos. A bibliografia é vasta e, em parte por isso, muita gente, inclusive cientistas, prefere negar a priori os fenômenos, recusando, sem exame, material que seria precioso para seu próprio campo de pesquisa e atividade. No que diz respeito à existência de Deus e dos espíritos, ainda que a grande evidência acumulada possa não ser aceita como prova, deveriam os céticos lembrarem-se de que a falta de prova da presença não constitui prova da ausência. O fato de serem imperceptíveis, para as pessoas comuns, alguns fenômenos espirituais, também não acrescenta qualquer evidência da inexistência de tais fenômenos, pois nos defrontamos com muitas coisas invisíveis sobre cuja existência não temos nenhuma dúvida. Por exemplo, luzes cuja freqüência esteja além da cor violeta (ultra-violeta) ou abaixo do vermelho (infra-vermelho) são invisíveis aos nossos olhos. Um som com freqüência de 30.000 hertz não seria audível para seres humanos mas poderia sê-lo para cães. Se estivermos em um local que nos pareça totalmente silencioso, tal silêncio é ilusório, significa que os sons produzidos no local estão todos abaixo do nosso limiar de audição. Vivemos cercados de ondas de rádio, TV, raios X, raios cósmicos e tantas outras formas de energia que não são detectadas por nossos sentidos. Deveríamos considerar tudo isso como inexistente?

A aceitação de que a vida não se restringe à existência material leva, no mínimo, a uma reavaliação dos nossos objetivos. A busca desenfreada dos prazeres materiais passa a ser desestimulada pela transitoriedade dos mesmos. Conquanto o poder, a beleza, a juventude, a riqueza, a saúde, a sexualidade sejam desejáveis e, enquanto durarem, agradáveis, têm o grave inconveniente de serem efêmeros: nada destas coisas será levado para o túmulo. Então, o que deve ser valorizado com prioridade? Para quem aceitou a continuidade da vida após a falência do corpo (que se desintegra e é reaproveitado de alguma forma pela natureza), a palavra de ordem é investir nas coisas que podem acompanhar o espírito em sua jornada interminável, a chamada Vida Eterna. Tais coisas são as virtudes, o conhecimento das leis divinas, o amor fraterno, enfim tudo aquilo que possa ser considerado uma bagagem útil para o espírito, mesmo quando este estiver desprovido de sua vestimenta carnal.

Uma conseqüência importante da crença na vida eterna é um comportamento menos egoísta, mais voltado para o coletivo do que para o individual, resultando em uma sociedade mais justa, onde predominem a ética e a Justiça e onde não haja indivíduos excluídos de benefícios que devem ser disponibilizados para todos. Embora haja ainda um longo caminho a percorrer para chegar a tais resultados, uma observação cuidadosa e abrangente mostra indícios de um movimento significativo nesta direção. A natureza não dá saltos, mas a longo prazo evolui sempre na direção correta. Libertar-se de fanatismos e sectarismos e examinar com isenção as idéias novas (ou mesmo antigas) que se apresentarem, são atitudes corretas para quem deseja acompanhar a transição do mundo para uma nova era de paz e felicidade.

O autor é Ten Cel Ref e Presidente do Núcleo de Belo Horizonte da CME.

 

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