
Crer ou Não Crer
Roberto Ângelo de Barros Padilha
Cz 6.629
Crença em Deus
Crença na Vida Espiritual
Crença na Reencarnação
Crença na Lei de Causa e Efeito
Crença em Deus: Lei de Causa e Efeito
Todas as crenças citadas acima se relacionam e se completam de alguma forma. A Lei de Causa e Efeito é também conhecida como Lei de Ação e Reação e Lei do Carma. Observamo-la em nossas atividades diárias, onde todos os fatos que presenciamos estão atrelados uns aos outros em uma interminável sucessão, ou seja, um efeito foi produzido por uma causa que por sua vez é o efeito de uma causa anterior, etc.
Por exemplo, se estivermos observando uma partida de sinuca podemos ver em um certo momento uma bola vermelha correr em linha reta e precipitar-se na caçapa. Acontece que a bola vermelha executou o seu deslocamento em direção à caçapa porque uma bola branca também se deslocou sobre a mesa e colidiu com a bola vermelha, impulsionando-a. Mas, para que a bola branca se deslocasse, foi preciso que a ponta de um taco a golpeasse da forma apropriada. Este taco por sua vez foi manejado por um jogador habilidoso que o estava utilizando. Recuando ao longo destes fatos o quanto nossa memória ou nossa imaginação o permitirem, nunca chegaremos nem mesmo perto dos primórdios dessa interminável cadeia de eventos, mas sentiremos a necessidade de uma causa inicial que teria dado origem a tudo aquilo que se encontra ao nosso redor, e que, por ser a primeira ou a inicial, não seria por sua vez o efeito de uma causa anterior. Chamemo-la a Causa Primária de Todas as Coisas. Do fato de que ela não foi produzida a partir de nenhuma causa anterior, concluímos que existiu de todo o sempre, ou seja, é eterna; se assim não fosse, teria sido criada a partir do nada, hipótese absurda. Do fato de que todas as coisas que observamos, até onde as possamos observar, estejam submetidas a leis imutáveis e universais, portanto sábias, deduzimos que esta causa primeira é dotada de inteligência, na verdade a inteligência suprema, já que todos os objetos e criaturas, visíveis ou não, que nos cercam, se originaram dela ou, em outras palavras, foram criados por ela. Toda esta linha de raciocínio está sintetizada na pergunta número 1 de "O Livro Dos Espíritos" e respectiva resposta:
Que é Deus?
Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.
Nada sabemos sobre a natureza de Deus, sua forma, composição, etc, mas a inegável necessidade de uma causa primária tem sido às vezes apresentada como uma prova da sua existência: Sendo Ele a causa primária a partir da qual todas as outras coisas necessariamente se originaram, sem a sua existência nenhuma outra coisa poderia ter acontecido e estaríamos diante do nada. Como todas as provas ou demonstrações, esta é convincente para algumas pessoas e para outras não. No entanto a crença em Deus, mais do que depender de provas ou demonstrações, parece estar arraigada no íntimo do ser humano e é reforçada dia a dia pela beleza, pujança, vastidão e variedade de suas manifestações. Estas se mostram por vezes belas como um por de sol, tranqüilas como as águas de um lago remansoso, destruidoras ou ameaçadoras como um furacão ou um vulcão em erupção, adelgaçadas no recôndito do microcosmo ou esparramadas pela incomensurável vastidão do macrocosmo. Já houve quem dissesse: quem não vê Deus em toda a parte, não O vê em parte alguma.
A Vida Espiritual
A vida espiritual nos é sugerida também pela lei de Causa e Efeito. Isto porque sentimos a necessidade de uma causa da qual se origine toda a atividade, inteligência e outras faculdades presentes nos seres humanos. Esta causa não é senão o espírito que, ao retirar-se do corpo do ser humano por ocasião da morte, transforma este último em um cadáver, matéria inerte e inoperante, pronta a entrar em decomposição. Experiências realizadas principalmente em centros espíritas mas também fora destes vêm demonstrando à saciedade que algo sobrevive à morte de um ser humano. O espírito, que enquanto dispõe de um corpo carnal, costuma designar-se como alma, "anima" este corpo enquanto o mesmo oferece condições, mas abandona-o e sobrevive ao que se convencionou chamar de morte e que mais propriamente deveria chamar-se desencarnação. Após a desencarnação o espírito entra em uma situação conhecida como erraticidade e nesta situação conserva, durante algum tempo, boa parte das características morais, intelectuais e outras que compunham a sua personalidade quando encarnado.
As faculdades concedidas ao ser humano por seu criador transformam-no em colaborador ou mesmo co-criador, com funções cada vez mais importantes a desempenhar na obra incessante da criação. Para tanto, o ser humano deve possuir, ou "herdar", muitos dos atributos do seu criador, em especial a eternidade e a imaterialidade, ou indestrutibilidade. É bem possível que a natureza íntima e mais profunda do ser humano, aquela que sobrevive ao longo dos evos, seja semelhante à natureza íntima do próprio Deus. Isto justificaria o que foi escrito: "e Deus criou o homem à sua imagem e semelhança." Falar sobre a natureza da alma ou espírito é tão difícil quanto falar da natureza do próprio Deus. Entretanto comunicar-se com os espíritos ou mesmo vê-los é relativamente fácil. Isso ocorre rotineiramente nos centros espíritas e ocasionalmente em outros ambientes. A vida espiritual, dado à imortalidade do espírito, é equivalentemente chamada de Vida Eterna.
Reencarnação
Até então não falamos nela, mas é como se faltasse uma peça no mecanismo. Ao ser criado, o espírito trás consigo, em estado latente ou potencial, todas as virtudes que um dia o levarão à plenitude de sua integração com a obra divina. Entretanto precisa burilar seus talentos lentamente, arduamente, à custa de muito trabalho e até mesmo dor, sofrimento. Como o diamante bruto que pela ação do buril vem a ser transformado em rutilante pedra de ímpar beleza. Se assim não fosse, o espírito não teria mérito nem daria valor a tão esplêndida conquista. É onde entra a reencarnação. Repetidas vezes volta o espírito ao cenário das lutas planetárias, como o estudante que realiza diferentes cursos, do pré-escolar à faculdade, até capacitar-se ao exercício profissional. A cada volta do espírito à carne, anima ele uma diferente personalidade e esta é exatamente a que melhor atende aos requisitos daquela encarnação em particular, levando em conta o adiantamento ou progresso espiritual, a natureza das atividades a serem desenvolvidas ou metas a serem cumpridas. Cumpre ressaltar, somos uma alma que se reveste temporariamente de um corpo, não um corpo que abriga uma alma. A reencarnação é o instrumento para que se cumpra uma das leis fundamentais outorgadas por Deus, a Lei do Progresso. A cada encarnação, acumula o espírito novos conhecimentos e experiências que vão enriquecer o conteúdo da memória espiritual onde todos esses conhecimentos e experiências ficam guardados indelevelmente. A individualidade, que é o espírito, armazena as experiências que acumulou ao animar as várias personalidades vividas em cada uma de suas encarnações. Embora uma personalidade não se lembre normalmente dos acontecimentos vividos como uma outra personalidade do mesmo espírito, as lembranças lá estão, nas profundezas da memória espiritual, e se fazem presentes na forma de tendências, índole, temperamento e outras características, podendo mesmo serem evocadas em determinadas circunstâncias ou brotarem espontaneamente em crianças.
Lei de Causa e Efeito
A Lei de Causa e Efeito adquire um escopo mais amplo quando ligada ao conceito de reencarnação. Isto porque acontecimentos da vida atual podem ser o resultado de outros ocorridos em vidas anteriores. De outra forma não haveria como explicar as aparentes desigualdades de tratamento do Criador em relação a suas criaturas. Enquanto algumas pessoas nascem e vivem na opulência, outras parecem condenadas a viver miseravelmente. Na realidade todos recebem exatamente o tipo de experiência pelo qual precisam passar, considerando o seu comportamento em vidas anteriores e tendo em vista o seu aperfeiçoamento espiritual. Então as dificuldades e os sofrimentos que venhamos a enfrentar têm finalidade nitidamente educativa, e não punitiva. A compreensão deste fato leva as pessoas a receberem com mais tranqüilidade, sem revoltas e sem rebeldias inúteis, as vicissitudes que lhes caiba enfrentar, amenizando muito os sofrimentos, e proporcionando um melhor aproveitamento das "lições" recebidas. É importante frisar que ninguém está condenado a um sofrimento eterno. Se por um lado, enfrento dificuldades em conseqüência de erros cometidos no passado, por outro posso e devo fazer bom uso do meu livre arbítrio hoje, de modo a encontrar condições melhores no porvir.
Sem a ação combinada da Lei de Causa e Efeito e da Reencarnação, seria difícil explicar como Deus concede o livre arbítrio a suas criaturas, a ponto de algumas delas se engajarem em ações terrivelmente perversas. Aquelas leis asseguram que, mais cedo ou mais tarde, todas evoluirão a ponto de se tornarem eficientes colaboradoras na gloriosa obra da criação.
A reencarnação combinada com a lei de Causa e Efeito resulta em uma justiça perfeita e, ao mesmo tempo, implacável, já que a Lei de Causa e Efeito é automática. As pessoas que não crêem ou não entendem esse mecanismo, podem ser levadas a uma falsa impressão de impunidade, visto como por vezes o tempo decorrido entre o comprometimento e o resgate pode estender-se por séculos. No entanto é bom que saibam que jamais deixarão de resgatar suas faltas por mais que tentem fugir disso.
Por outro lado o acerto em relação às faltas cometidas não é do tipo pena de talião: olho por olho, dente por dente. A lei é inexorável mas, não obstante, é flexível. Vemos os juízes que atuam na justiça terrena aplicarem penas alternativas que, em determinadas circunstâncias, mostram-se mais eficientes do que as penas convencionais. Por exemplo um juíz condenou um homem, que desrespeitara e agredira verbalmente a um guarda de trânsito, a ficar algumas horas trabalhando como o guarda. Com isso, o homem sentiu por experiência própria como era difícil e cansativo o trabalho do guarda e, depois de cumprir sua "pena", decidiu espontaneamente desculpar-se com o guarda. Ora, se os juizes da Terra, com todas as limitações peculiares aos seres humanos, tem capacidade para aplicar penas alternativas eficientes, que não dizer a respeito de Deus, a inteligência suprema? Com muito maior eficiência somos beneficiados pela flexibilidade da Justiça Divina. A lição para o erro cometido virá inevitavelmente como conseqüência deste mesmo erro, porém sempre com a dosagem certa e suportável para o réu. Este, quando se trata de um espírito suficientemente esclarecido, costuma às vezes escolher e solicitar a forma de ressarcimento de seus débitos. Devemos lembrar ainda que esse resgate pode ser com o amor, pagando o nosso débito com a prática da caridade, desinteressada e sincera.
Encontramos em nosso viver cotidiano oportunidades de comprovar com que exatidão as crenças acima se aplicam à realidade dos fatos, o que reforça nossa convicção e, o que é mais importante, leva-nos a uma conduta coerente com elas. Por exemplo, a crença na vida eterna contribui para o desapego às coisas efêmeras do mundo material, tais como riquezas, poder, beleza, glória e similares, aumentando ao mesmo tempo o interesse pelas coisas relacionadas com a vida espiritual, as quais nos acompanharão pelos séculos afora. A crença na reencarnação é um desestímulo ao orgulho e ao egoísmo, já que o rico de hoje poderá ser o pobre de amanhã, o chefe todo poderoso pode retornar como humilde serviçal, etc. É também um incentivo à preservação do meio ambiente por sabermos que nossos descendentes, a médio prazo, seremos nós mesmos, reencarnados. Saber que Deus é um pai soberanamente justo e bom nos enche de tranqüilidade diante dos riscos que corremos, pois sabemos que não seremos contemplados senão com aquilo que nos é devido, como prêmio ou como castigo. Saber que a lei de causa e efeito rege inexoravelmente os destinos do mundo afasta qualquer idéia de impunidade e nos leva a agir da melhor maneira possível no presente, para termos uma boa colheita no futuro.
Entretanto uma conduta coerente com as crenças aceitas somente se verifica quando tais crenças são racionais. É muito diferente a situação em que as crenças são impostas por pretensas "autoridades" ou apenas pela tradição, mas não resistem ao crivo de uma reflexão séria e livre de preconceitos. Então o que se observa é o conflito, a incoerência, o famoso "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço". É preciso vencer o comodismo, a rotina, a preguiça mental e os preconceitos, aperfeiçoando nossa compreensão da vida de modo a termos crenças suficientemente confiáveis para que possamos pautar nossa conduta por elas.
O autor é Ten Cel Ref e Presidente do Núcleo de Belo Horizonte da CME.