
A Caridade e a Promoção Social na Visão Espírita
Carlos Wagner de Britto
Cz 6.999
Conta Emanuel Swedenborg1 a seguinte fábula sobre Melanchton, o famoso cérebro da Reforma Protestante, braço direito de Martinho Lutero:
"Os anjos me disseram que, quando Melanchton morreu, lhe foi oferecida no outro mundo uma casa ilusoriamente igual àquela que possuíra na Terra. (A quase todos os recém-chegados à eternidade acontece o mesmo e por isso acreditam que não morreram). Os objetos domésticos eram iguais: a mesa, a escrivaninha com suas gavetas, a biblioteca. Quando Melanchton despertou nessa casa, reatou suas tarefas literárias como se não fosse um morto e escreveu durante alguns dias sobre a salvação pela fé. Como era seu hábito, não disse uma palavra sobre a caridade. Os anjos notaram essa omissão e mandaram pessoas a interrogá-lo. Melanchton lhes falou: – Demonstrei de maneira irrefutável que a alma pode dispensar a caridade e que para entrar no céu basta à fé . Dizia isso com soberba e não sabia que já estava morto e que seu lugar não era o céu. Quando os anjos ouviram essa afirmativa o abandonaram.
Em poucas semanas, os móveis começaram a se encantar até se tornarem invisíveis, com exceção da poltrona, da mesa, das folhas de papel e do tinteiro. Além disso, as paredes do aposento se mancharam de cal e o assoalho de um verniz amarelo. Sua própria roupa já estava muito mais ordinária. Continuava, entretanto, escrevendo, mas como persistia na negação da caridade, foi transferido para uma sala subterrânea, onde estavam outros teólogos como ele. Ali ficou preso alguns dias e começou a duvidar de sua tese e lhe deram permissão de voltar. A roupa que vestia era de couro cru, mas procurou imaginar que a que tivera antes fora uma simples alucinação e continuou elevando a fé e denegrindo a caridade. Uma tarde sentiu frio. Então percorreu a casa e comprovou que as demais peças já não correspondiam às de sua casa na Terra. Uma delas estava cheia de instrumentos desconhecidos; outra estava tão reduzida que era impossível entrar nela; outra não tinha sofrido modificação, mas suas janelas e portas davam para grandes dunas. A do fundo estava cheia de pessoas que o adoravam e lhe repetiam que nenhum teólogo era tão sábio quanto ele. Essa adoração agradou-o, mas como uma das pessoas não tinha rosto e outras pareciam mortas, acabou se aborrecendo e desconfiando delas. Determinou-se então a escrever um elogio da caridade, mas as páginas que escrevia hoje apareciam apagadas amanhã. Isso aconteceu porque eram feitas sem convicção.
Recebia muitas visitas de gente morta recentemente, mas sentia vergonha de mostrar-se num lugar tão sórdido. Para fazer-lhes crer que estava no céu, entrou em acordo com um feiticeiro dos que estavam na peça dos fundos, e este os enganava com simulacros de esplendor e serenidade. Era só as visitas se retirarem, reapareciam a pobreza e a cal; às vezes isso acontecia um pouco antes.
As últimas notícias de Melanchton dizem que o mágico e um dos homens sem rosto o levaram até as dunas e que agora ele é como que um criado dos demônios".
Já na crônica de Carlos Baccelli, este conta o seguinte caso pitoresco, um dos vários envolvendo a personalidade ímpar de Chico Xavier:
"Certa vez, um amigo abordou o intérprete de "Parnaso de Além Túmulo" e perguntou-lhe:
– Chico, na sua opinião, qual é o homem mais rico?Como se estivesse a ouvir a voz de Emmanuel nos escaninhos da alma, o médium respondeu:-
Para mim, o homem mais rico é o que tenha menos necessidades... Arriscando nova pergunta, o companheiro quis saber: – E o homem mais justo e sábio?... Com a mesma espontaneidade, ele esclareceu: – O homem mais justo e sábio é o que cumpre com o dever...
– Mas – insistiu o confrade, certamente, interessado em alguma revelação que lhe facilitasse a vida – o que você está me dizendo é o óbvio...Com o fraterno sorriso de sempre, sem se deter na tarefa de atendimento aos que lhe procuravam a palavra, Chico redargüiu: – Meu filho, tudo que está no Evangelho é o óbvio... Não existem segredos nem mistérios para a salvação da alma. Nada mais óbvio que a Verdade! O nosso problema é justamente este: queremos alcançar Céu, vivendo fora do óbvio na Terra!..."
Guardando as devidas proporções de lugar e época de acontecimento dos eventos e, considerando-se que um é fábula e outro é fato real, não escapa à percepção de todo estudante das questões religiosas que fé e caridade disputam o mesmo espaço no coração do homem de bem, quando na verdade cada um tem seu papel reservado e importante no cenário da vida humana. Mesmo para ateus e agnósticos, quando pautam suas vidas pelo caminho da ética e do bem comum, o fato de se crer ou não em Deus, de se crer ou não numa vida além da vida material, a convicção do não crer já é por si só uma forma de crença.
Já o grande orador grego Horácio2 dizia que é mais agradável aos deuses uma prece amargurada de um inconformado com os sofrimentos dos seus semelhantes do que a daquele que só tem palavras de adoração em seu egoísmo complacente com as misérias humanas.
Quando encarnado enfrenta o homem duas ordens de necessidades: materiais e espirituais. A Doutrina Espírita nos mostra que os valores espirituais são permanentes, pois são aqueles que nos acompanham além da vida na carne. Já as necessidades materiais são transitórias, pois estão circunscritas ao âmbito físico do planeta, encerrando-se sua dependência com a extinção do corpo humano pela morte.
O Espiritismo não se desvia da realidade humana e, não prega uma vida de constante contemplação. Quando os espíritos dizem a Kardec que - numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo ninguém deve morrer de fome3 - é enfatizada a idéia de que apesar de a Doutrina Espírita destacar uma maior importância para os valores espirituais, não deixa de pregar a responsabilidade do homem por um sistema social mais justo no mundo em que vivemos.Na continuidade da mesma digressão, os espíritos também argumentam que só ao homem deve ser imposta a culpa pela miséria material da sua organização social por falta de previdência e critério no uso dos meios do planeta.
Dados coletados no ano de 2002 sobre a fome no mundo, colhidos pela Agência de Información Solidaria4 da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) mostram que há 840 milhões de pessoas subnutridas, sendo 95% delas de países sub-desenvolvidos ou em desenvolvimento e, segundo o mesmo relatório 30 milhões dessas pessoas morrem por ano devido à má distribuição mundial de alimentos.
Na esteira das causas desta vergonha coletiva, na liderança encontram-se os conflitos armados (guerras entre as nações e as civis no seio do mesmo povo); seguindo no caminho deste drama temos ainda como causas os grandes desastres da natureza (as secas, inundações, tufões, etc), turbulências políticas, bem como alguns sistemas econômicos que visam as chamadas estabilidades de mercado interno ou global em detrimento do bem estar do ser humano.
Só para se ter uma idéia da insensatez humana pode-se usar o exemplo da mudança do orçamento militar dos Estados Unidos da América, que aprovou a cifra de 379 bilhões de dólares logo após os atentados terroristas ocorridos em Nova York em 11 de setembro de 2001. Em contraste com esta cifra a FAO calculava na época que com 24 milhões de dólares por ano seria possível reduzir até à metade o número de seres humanos que sofrem de desnutrição até o ano de 2015. Pior do que isso só mesmo o fato de que nos países onde a miséria campeia de forma arrasadora, seus dirigentes consumirem suas reservas cambiais em armamento, fomentando guerras civis, de cunho étnico ou religioso, fundindo duas das mais antigas e fatais crises da raça humana: a guerra e a fome.
Não se pode dizer que não haja meios para resolução do problema, mesmo que em médio prazo. Infelizmente o que ocorre é que na nossa atual sociedade ainda não está composta de homens considerados verdadeiramente bons que "procuram elevar, aos seus próprios olhos, aqueles que lhes são inferiores, diminuindo a distância que os separa." 5
Conclui o Mestre Allan Kardec6 que: ‘O progresso da Humanidade tem seu princípio na aplicação da lei de justiça, de amor e de caridade. Essa lei está fundada sobre a certeza do futuro; tirai essa certeza e lhe tirareis sua pedra fundamental. Dessa lei derivam todas as outras, porque ela encerra todas as condições da felicidade do homem, e só ela pode curar as chagas da sociedade e ele pode julgar, pela comparação das épocas e dos povos, quanto sua condição melhora à medida que essa lei é melhor compreendida e praticada. Se uma aplicação parcial e incompleta produz um bem real, que será, pois, quando fizer dela a base de todas suas instituições sociais! Isso é possível? Sim, porque uma vez que deu dez passos, pode dar vinte, e assim por diante. Pode-se, portanto, julgar o futuro pelo passado. Já vimos se apagarem, pouco a pouco, as antipatias de povo a povo; as barreiras que os separam diminuem diante da civilização; eles se estendem as mãos de uma a outra extremidade do mundo; uma maior justiça preside as leis internacionais; as guerras tornam-se mais e mais raras e não excluem o sentimento de humanidade; a uniformidade se estabelece nas relações; as distinções de raças e de castas se apagam e os homens de crenças diferentes calam os preconceitos de seita para se confundirem na adoração de um só Deus.
A Doutrina Espírita, portanto, associa o conceito da caridade com a da justiça, para que a fé seja racional e não meramente devota alienada ou fundamentalista.
Assim, pela visão global da Doutrina Espírita, a verdadeira Promoção Social do ser humano deve ter como objetivos principais:
· Eliminação ou redução do sofrimento humano.
· Esclarecimento racional do porque do sofrimento humano.
· Estabelecimento gradativo de um ambiente mental propício à fé ou o seu fortalecimento através do uso da razão, quando esta fé já existe.
Para que isso efetivamente aconteça o Espiritismo precisa de espíritas que além de crerem nos fenômenos ligados à ciência espírita, além de compreenderem as conseqüências morais advindas desta crença , sejam aqueles que praticam ou se esforçam por praticar a moral espírita7 .
Deste fato nenhum espírita sincero pode fugir, pois ele sabe que dos ditados populares, um dos mais verdadeiros é que a palavra convence, mas o exemplo arrasta.
Muita paz com Jesus.
Fontes de consulta
1 - Arcana Coelestia – Emanuel Swedenborg - Tradução de Flávio José Cardozo
http://paginas.terra.com.br/arte/ecandido/mestre11.htm
2 - Horácio Flaco - (65 a.C. - 8 a.C.).
Célebre poeta, autor de Odes, Epodos, Epístolas, Sátiras e da Arte Poética. Amigo de Augusto, de Virgílio e também protegido de mecenas, fazia consistir a felicidade no uso moderado dos bens da vida.Seus versos são modelos eternos de delicadeza e bom gosto.
3 - O Livro dos Espíritos – Allan Kardec – questão 930
4 - Fome: as cifras de uma vergonha mundial – Christian Selles - Agência de Información Solidária
5 - O Livro dos Espíritos – Allan Kardec – questão 886
6 - O Livro dos Espíritos – Allan Kardec – Conclusão – item IV
7 - O Livro dos Espíritos – Allan Kardec – Conclusão – item VII
O autor é Engenheiro e membro da Diretoria do Núcleo da Vila Militar-Deodoro, no Rio de Janeiro.