O Burrinho de Francisco e o Nosso Burrinho


Virgínia Aragão

 

Certa vez, assistindo a uma palestra de Divaldo Franco no Centro Espírita Caminho da Rendenção, ouvi o que Francisco, mais conhecido como São Francisco, dizia quando se excedia nas labutas diárias: "Ah, meu burrinho! Quanto eu tenho lhe maltratado! Coitado do meu burrinho!". Francisco se referia a seu corpo físico como seu burrinho, o que não deixa de ser verdade, uma vez que nosso espírito imortal está imerso em nosso corpo material.

Refletindo sobre as palavras de Francisco ditas há tanto tempo, creio que devemos pensar no que temos feito do "nosso burrinho". Será que temos cuidado convenientemente dele? Sabemos repeitar nossos limites físicos?

Como seres encarnados, em evolução neste planeta, estamos voltados para o desenvolvimento de nossas qualidades morais, lendo o Evangelho Segundo o Espiritismo, todas as obras codificadas por Kardec e pelos espíritos esclarecidos.

Bem, estamos conscientes de nossa condição evolutiva, queremos melhorar, nos esforçamos para diminuir nossos defeitos e erros de séculos de transgressões da Lei Divina... Mas, como temos tratado nosso veículo material? Será que não estamos agredindo diariamente, de todas as formas possíveis, nosso burrinho?

A medicina nunca sofreu um avanço tão grande quanto no último século. Anestesias, vacinas e tratamentos mais e mais eficazes na luta contra várias doenças aumentaram, não só a expectativa de vida da população mundial, como também humanizaram a condição do doente. No entanto, o que se observa é que nunca existiram tantas pessoas doentes.

Algo mais espantoso ainda, para não dizer, muito triste, é que as farmácias se transformaram em verdadeiros supermercados de remédios. As pessoas estão viciadas, viciadas em remédios! Vão à farmácia como se fossem a uma mercearia, compram medicamentos sem prescrição médica e, na maioria das vezes, sem a mínima necessidade. O que estamos fazendo com nosso organismo físico?

Procuramos evoluir mas não nos apercebemos de nossas agressões diárias ao nosso corpo. O que estamos comendo? O que estamos bebendo? Você sabe? Nosso corpo nos foi emprestado. É, emprestado por Deus para nossa evolução, neste planeta. Temos certas obrigações para com ele. Quando crianças, nossos pais nos ajudam e orientam, depois somos nós mesmos quem devemos preocupar-nos com ele.

Para começar nossa reflexão sobre o assunto, creio que devemos falar sobre alimentação. Nem tudo que nos é oferecido nos faz bem. Nosso corpo físico é uma máquina perfeita. Basta observar um bebê. Ele é perfeito! É nosso dever mantê-lo assim pelo tempo que Deus nos destina na Terra. O amor faz um papel importantíssimo nesse ponto. O "auto-amor", como nos diz Joana de Angelis através da psicografia de Divaldo Franco. Precisamos nos amar como seres, filhos de Deus que somos. Criaturas falíveis ainda, mas destinadas a evoluir ao infinito. Quando se diz "auto-amor", nos referimos ao cuidado e respeito que devemos ter por nós mesmos. Não me refiro ao egoísmo, que não pode ser confundido com o "auto-amor".

Se nos amamos, sabemos o que é bom para nós. Comidas industrializadas, carnes, alcoólicos, são coisas que se devem evitar. A propaganda tem o poder de fascinar, de nos induzir a comprar, a maioria das vezes, aquilo que não queremos ou não necessitamos. Na verdade, a maioria de nós é bem informada o suficiente para saber disso, mas o que ocorre é que sabemos, mas não "internalizamos". Só quem possui o "auto-amor" consegue entender que determinados alimentos não farão bem.

A partir desse ponto, mais conscientes, podemos exercer nosso poder de escolha e refletir. Por exemplo: por que o homem (ocidental) é o único mamífero que adulto, continua a se alimentar com leite? Será que os alimentos oferecidos pela indústria, com altas doses de corantes, conservantes, além de estabilizantes, farão bem ao nosso corpo? O tempo economizado no preparo de comida utilizando esses alimentos, compensará os possíveis danos físicos e emocionais?

Não podemos esquecer que a indústria, seja ela alimentícia, farmacêutica, dentre outras, visa em primeiro lugar o lucro, pois se uma empresa não gera lucros, ela se torna deficitária e acaba por falir. Isto significa que somos nós e apenas nós os responsáveis pela nossa saúde.

Vemos hoje que as pessoas estão adquirindo uma consciência maior a este respeito. Feiras de alimentos orgânicos, produzidos sem agrotóxicos e sem adubos químicos estão se espalhando pela cidade da mesma forma que estão conquistando espaço nas prateleiras dos supermercados. As pessoas estão voltando a procurar os médicos homeopatas para se tratarem. Os remédios naturais, aqueles que nossos avós retiravam do quintal de casa, voltam a fazer parte do cotidiano de muitas pessoas.

Esse assunto não é um simples modismo. Basta pensar que tudo neste planeta irradia energia. Nosso corpo físico é uma usina de energia, as plantas contém energia, e o que é melhor, elas condensam através da fotossíntese, a energia do sol, sendo, portanto, altamente benéficas para homens e animais. Deus colocou em nossso planeta tudo aquilo de que necessitamos para viver. O homem tem o dever de preservar, de cuidar desse bem que Deus lhe emprestou. Somos tão somente fiéis depositários. Façamos por merecê-lo.

A autora é Capitã-de-Fragata, servindo na EGN e vinculada ao Núcleo da Praia-Vermelha-Urca da CME.

 

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